Uma noite de arte e de muito suor
Na abertura do Enanco, no Museu de Arte de Goiânia, o calor sem ar-condicionado ofuscou as telas de quase 80 artistas naifs vindos de todo o país. A autora relata o desconforto e a indignação da noite para questionar o descaso do poder público com a cultura e a dignidade de quem faz arte.
Malu Longo
8/26/20262 min read


No sábado, 22 de agosto de 2026, muita gente saiu de casa para prestigiar no Museu de Arte de Goiânia a terceira edição do Encontro Nacional de Artistas Naifs do Centro-Oeste, o EnanCO, evento cuidadosamente preparado que pode ser conferido até o dia 18 de outubro.
Lá dentro era visível o desconforto, mas a indignação e o espanto também seguiram o lastro. Na entrada do MAG, as pessoas buscavam a leve brisa que as árvores do Bosque dos Buritis ajudavam a proporcionar numa noite absurdamente quente. Nesse espaço, onde houve aglomeração, uma frase era voz contínua: é muito desrespeito.
A exposição, com obras de artistas de 17 estados e do Distrito Federal, foi aberta no MAG sem ar condicionado. Naquele dia, quem entrou na casa de artes saiu estupefato. “Como a Prefeitura de Goiânia deixa isso acontecer?”. “As artes plásticas são menos valorosas do que a música sertaneja?”, questionaram.
O nervosismo estava estampado no rosto dos organizadores. A culpa de tamanha desfaçatez foi atribuída a muita gente e não deixou de sobrar para quem ocupa os cargos mais altos da Prefeitura de Goiânia e da Secretaria de Cultura da capital. O MAG é patrimônio do Município, mas não tem fundo próprio.
Ouvi ali que larápios surrupiaram os fios externos dos aparelhos de ar condicionado e que o problema não foi solucionado a tempo. Temos aí dois inconvenientes se isso realmente ocorreu: houve falha na vigilância do bem público; e descaso com a necessidade da urgência da reparação.
Houve, sim, desrespeito com os artistas e seus convidados. Lembrando que os direitos culturais se fundamentam na dignidade da pessoa humana e são garantidos pela Constituição Federal.
Fiquei com vergonha alheia. Quando a gente recebe alguém na nossa casa é de praxe aumentar os cuidados para que o visitante se sinta bem e confortável. E muitos dos quase 80 artistas de vários cantos do país estavam presentes no MAG.
O calor insuportável comprometeu o desejo de conferir, com tempo e atenção, as telas que vieram de todas as regiões do Brasil. Havia pressa em deixar as salas onde as telas foram expostas.
Governantes não precisam apreciar todas as formas de manifestação artística, mas seus gostos pessoais não podem e não devem determinar os caminhos da cultura.
A responsabilidade de quem ocupa cargo público é compreender que a diversidade artística é parte da identidade de uma sociedade, estimula a reflexão, preserva a memória e amplia a capacidade de uma cidade se reconhecer e se reinventar.
A cultura é um bem coletivo e os artistas precisam de condições para continuar produzindo. Nessa circunstância, o respeito é parte incontestável.
Que o bom senso prevaleça!!!




