Um encontro com o trabalho e a vaidade na velhice

Numa noite de bar, a autora reencontra o Brasil que trabalha até tarde para sobreviver. Vera, aos 70 anos, vende doces entre as mesas e ensina, sem perceber, uma lição sobre dignidade, vaidade e o verdadeiro sentido de envelhecer com propósito.

Malu Longo

8/17/20262 min read

Ela chegou andando devagar, sem chamar a atenção.

Miúda, meio corcunda, semblante fechado e o rosto tomado por rugas.

Sua expressão carregava o peso de uma vida cheia de desafios, revelando que a jornada não foi branda.

Comentei com meus amigos com quem dividia uma mesa que o trabalho de idosos sempre me incomodou, mais ainda por ser noturno e numa peregrinação por bares.

Nesses ambientes oferecer uma guloseima não é tarefa fácil.

Nem todos estão dispostos a pagar por um doce quando o olhar e o estômago estão voltados para os petiscos que acompanham a cerveja.

Ou seja, era necessário dobrar o esforço para garantir a renda extra.

Enxerguei nela uma história de luta e resiliência.

Aquela mulher vestindo roupas simples e com o cabelo desalinhado veio nos oferecer o que tinha à venda em sua bandeja.

Meu amigo escolheu uma paçoquinha, pagou por ela em dinheiro e a devolveu.

“Venda para outro”, disse. Ela olhou curiosa para ele.

Decidi ajudar. Escolhi um doce e paguei o dobro usando o Pix.

Ela me explicou que a conta era de uma amiga, “que fazia o acerto direitinho”.

Cansada, sentou na cadeira ao meu lado e começamos a conversar.

Vera é o seu nome. Chegou em Goiânia na pandemia com o marido. Morava numa fazenda “lá pros lados de Faina”.

O salário mínimo que ambos recebem não é suficiente para as despesas, por isso os dois tinham de trabalhar.

“E os filhos?” Joguei verde para colher maduro.

“Cuidam das famílias deles”, resumiu.

Perguntei sua idade. “Estou com 70”.

Essa foi a parte mais dolorida da conversa.

Ela devolveu a pergunta. “Estou quase chegando lá”, respondi.

Vânia se mexeu na cadeira, olhou de frente pra mim: “Mas, você ainda é nova. Olhe pra mim, estou acabada, velha mesmo.”

A interação me levou a refletir sobre a vaidade feminina e a necessidade de trabalho na velhice.

À primeira vista, ver Vera driblando as mesas naquele bar lotado foi impactante.

Imaginei que o trabalho era somente uma fonte de sustento, mas me enganei.

Dali, ela iria ainda para outras casas noturnas num bairro próximo.

“Eu gosto muito. Me distrai”, reagiu ao meu espanto.

Percebi que a atividade também era uma forma de manter a dignidade e a autoestima, um propósito vital não importa a fase da vida.

Antes de sair, Vera me pergunta se posso pedir um carro por aplicativo.

“Estou cansada de andar e está ficando tarde”, justificou.

Solicitei a condução e fiquei aguardando junto com ela.

“Quanto é, vou pagar.” Respondi que já estava pago e que ela poderia ir em paz. “Qual é seu nome?”, lembrou de perguntar.

Eu disse: Malu.

“Estou falando seu nome de verdade”, falou incisiva.

“Maria Luisa”, respondi.

“Obrigada, Maria Luisa, espero te ver novamente”, comentou antes de entrar no carro.

Vera me fez refletir: trabalhar, mesmo em atividades simples, pode trazer um novo significado à vida, enquanto a vaidade deve ser redimensionada para valorizar as qualidades que realmente importam.

O que nos torna verdadeiramente jovens é a forma como encaramos as dificuldades e celebramos as conquistas, não importa a idade que temos.

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