Lugar de mulher é em qualquer lugar
Um relato bem-humorado sobre a contratação de duas "maridas" (um casal de mulheres) para reparos domésticos, e como a competência delas desmontou, na prática, a desconfiança que ainda cerca mulheres em ofícios tidos como masculinos.
Malu Longo
7/13/20262 min read


Diante da necessidade de pequenos reparos em casa, decidi experimentar os serviços prestados por duas mulheres. Companheiras de vida há sete anos, estão no negócio desde fevereiro de 2026. Atendem somente mulheres e a comunidade LGBT.
Por que?. “Para evitar críticas de homens. Eles nunca acreditam que somos capazes,” me diz uma delas.
Entendi a desconfiança quando fui a uma ferragista perto de casa com uma das “maridas” para comprar pequenos detalhes que faltaram para os reparos. Enquanto estávamos lá, a troca de comunicação - vídeo e áudio - entre elas foi intensa. Distante, a proprietária do negócio - sim, uma mulher - me perguntou: “Elas entendem disso? Eu disse: “Claro! Até mais do que muitos homens.” Acho que não a convenci.
Essa foi apenas uma particularidade de uma manhã muito movimentada e engraçada. Em casa, além de mim, estava a ajudante diarista que conhece tudo de onde moro mais do que eu mesma. Ou seja, quatro mulheres no mesmo ambiente.
Casa para arrumar, almoço por fazer, demandas do trabalho e atenção às duas “maridas”. A todo momento, uma delas grita: “Nossa, cheio de gambiarras. Homens….”
Jéssica, a que assume a linha de frente, checa tudo e não esconde o desapontamento. Ela sabe do que fala. Muito curiosa, aprendeu na raça observando tudo e na lida no trabalho pesado de construção. Gosta do que faz, sente um prazer visível em encontrar o defeito da torneira.
Cada vez que ela me olhava, já pensava: “Ai, Senhor, lá vem confusão!” Eu a proibi de dizer qualquer coisa que eu não queria ouvir, mas não teve jeito. Conseguiu me provar que o serviço não seria concluído se suas orientações não fossem seguidas.
Em pontos diferentes do apartamento, conversas se faziam ouvir. Mulheres. Dani sempre gritava: venha conferir seu chuveiro, sua torneira nova e até a cabeceira nova da cama.
Sem que nada fosse programado, as duas chegaram como velhas amigas. Conversamos muito e até rimos da situação.
Achei interessante a passagem delas pela minha casa em razão da diferença com os serviços masculinos. Homens, com raras exceções, são calados, fazem o que foi solicitado e se despedem depois de receber.
Nesse caso, não. A conversa ainda se prolongou e por muito pouco não voltaram para analisar a possibilidade de outro serviço, agora de marcenaria. Fomos salvas pela agenda apertada de ambas.
As “maridas”, como são chamadas, me contam que têm notícias de outras mulheres que devagar vão pisando o campo masculino, não somente nos reparos domésticos em geral, mas como eletricistas e marceneiras.
E, sim, deu certo. Os serviços delas foram certeiros, para homem nenhum botar defeito.
E nós, por aqui, só temos a celebrar porque “lugar de mulher é onde ela quiser”.


