A importância do olhar humano
Um homem que aprendeu a desconfiar de qualquer toque, criado num orfanato onde era só mais um número, se abre numa entrevista quando encontra alguém com olhar humano disposta a esperar o silêncio.
Malu Longo
7/6/20261 min read


Ele sempre foi uma pessoa desconfiada. Distante de qualquer manifestação de afeto. Um toque de mão já o deixava desconcertado. Demorei um tempo para perceber, mas depois entendi que seu comportamento tinha origem na infância, no orfanato que o acolheu. Ali era mais um, quase um número, não uma pessoa.
Conversamos um pouco, deixei que ele falasse e fui recebida não somente como uma jornalista em busca de informação, mas como alguém com quem ele poderia se abrir.
Passei 40 anos aprendendo isso: a matéria não começa quando você se apresenta e liga o gravador. Começa antes: no jeito como você olha, como você espera, como você mostra que está ali pra ouvir, não para extrair uma resposta.
Hoje, como ghostwriter, uso exatamente essa habilidade. Antes de escrever uma linha sobre a trajetória de alguém, eu escuto. Textos "genéricos" quase sempre são sintomas de quem não ouviu o suficiente.
Se você tem uma história pra contar e nunca encontrou as palavras certas, talvez o problema nunca tenha sido a escrita. Talvez tenha sido não ter tido alguém que soubesse esperar o silêncio.
Me chama pra conversar, sem compromisso, e a gente descobre juntos por onde começar.


